quarta-feira, 4 de março de 2015

Rev. Marcelo Lemos: um arminiano flertando com o liberalismo?

"Acredito ter ficado claro no primeiro artigo – Flertando com o Liberalismo? - duas coisas: primeiro, que não escrevi motivado pelo debate Calvinismo X Arminianismo, ainda que eu mesmo seja um calvinista; segundo, que não estou acusando o pastor arminiano presente ao debate de ser, de fato, um liberal. 

Entretanto, o que vimos acontecer no debate do programa “Vejam Só!”, da Rit, semana passada foi, mesmo que sem intenção, um flerte com o liberalismo. E o fato de que o pastor arminiano, e seus defensores, não consigam perceber isso é tanto decepcionante quanto assustador.


Vou citar aqui, uma vez que o debate persiste,  o principal argumento usado para defender a posição que o pastor arminiano defendeu no debate da RIT. O argumento que analisarei aqui pode ser encontrado no maior portal em defesa da teologia arminiana no Brasil (Arminianismo.Com). Trata-se de um argumento usado pelo site, e também por vários arminianos no Facebook – ainda que até mesmo irmãos arminianos repudiam a confusão feita no debate, e perpetuada depois por muitos.

“Como não havia um desenvolvimento teológico a respeito dos agentes (o diabo e seus anjos, por exemplo) que também atuam no universo criado por Deus, tudo era atribuído a Deus, até porque, de uma forma ou de outra, tudo está sob o seu controle, mesmo quando algo é feito por intermédio de outro. Os casos de Jó e Davi (a respeito do censo que ele levantou) são clássicos. Ainda que aqueles males tenham sido provocados pelo diabo, eles são atribuídos a Deus”.

Esse argumento, admito, é muito melhor que o argumento usado pelo pastor arminiano durante o debate. Porque nesse argumento ao menos se admite que “tudo está sob o controle de Deus”, então, Deus é a fonte de tudo. Perfeito. Aliás, esse raciocínio, como argumentou Graconato no debate, coloca tanto arminianos quanto calvinistas no mesmo barco a respeito da causa primeira de todas as coisas. Agora, ainda que o pastor arminiano tenha desejado falar a mesma coisa, não foi o que ele fez. Suas palavras foram: “(...) todas as coisas sãoinadvertidamente atribuídas a Ele, é por isso que nós vemos I Samuel 1 dizer lá que Deus “cerrou a madre de ana”... Como não tem ninguém para fazer isso, tudo é dito que Deus é quem faz, e por isso tudo a culpa é de Deus no Antigo Testamento, sobretudo no Antigo Testamento”.

Observe a diferença entre o argumento usado pelo site Arminianismo.Com e o argumento usado pelo pastor arminiano. Para o site é dito que a culpa é Deus porque, de certa forma , Deus controla todas as coisas. Mas para o pastor, tudo é atribuído a Deus porque os autores escreveram “inadvertidamente”. Ora, no primeiro caso o site está interpretando o texto bíblico, sem lançar contra ele um juízo negativo de valor, já no segundo está claramente sendo dito que o texto errou. Interpretar é coisa legítima, mesmo quando se erra, mas fazer juízo negativo contra o conteúdo do texto é liberalismo – não importa que o maior site arminiano do Brasil tente dizer o contrário.

No entanto, mesmo o site Arminianismo.com cai no erro de atribuir imperfeição ao texto bíblico; se é verdade que o parágrafo citado termina bem, seu começo é um ataque contra a inerrância bíblica, porque o autor diz: “Como não havia um desenvolvimento teológico a respeito dos agentes (o diabo e seus anjos, por exemplo) que também atuam no universo criado por Deus, tudo era atribuído a Deus”. Afinal, porque a Bíblia diz no Antigo Testamento que Deus criou este ou aquele mau? Ela fez isso porque seus escritores eram ignorantes, ou ela fez isso porque, de alguma forma, Deus realmente controla todas as coisas? Um arminiano pode simplesmente ficar com a segunda hipotese, e com isso aceitar que a Bíblia não erra. Mas não é o que o pastor fez lá na RIT, e não é, infelizmente, o que o site Arminianismo.com publicou em sua página. Para ambos, os autores impregnaram o texto bíblico com seus erros teológicos.

Acerca de todo o debate que se gerou depois do programa, o site arminiano declara o seguinte: “a acusação do Graconato e dos calvinistas é injusta. O Pastor não afirmou que a Bíblia contém erros, poderia dar a eles pelo menos o benefício da dúvida”. Como já afirmei no primeiro artigo, minha opinião é que o pastor arminiano realmente usou um péssimo argumento, sem se dar conta das implicações lógicas do mesmo. Longe de mim acusar o pastor de liberal – mas que certo aspecto de seu argumento é o mesmo da neo-ortodoxia, sem dúvida o é. E não apenas o argumento dele flerta com o liberalismo, o mesmo fazem todos aqueles que, com argumentos semelhantes, tentam salvá-lo. E repito: nenhum arminiano precisa disso, e aqueles que se apegam a tal, apenas demonstram quão frágil é sua teologia, a ponto de precisarem atacar a própria Escritura em sua defesa.

Quanto a deixar que o pastor arminiano se defenda, sou completamente a favor. No entanto, durante o debate, não ficou nenhuma dúvida sobre o que ele estava dizendo sobre os autores bíblicos terem feito afirmações erradas. Não importa quanto o site arminiano acuse o Pastor Graconato de ter tratado seu colega com falta de caridade, a verdade é que o calvinista o interrogou lá mesmo; acompanhe a transcrição que fiz:

Pastor Arminiano: “todas as coisas são “inadvertidamente” atribuídas a Ele, é por isso que nós vemos I Samuel 1 dizer lá que Deus “cerrou a madre de ana”... Como não tem ninguém para fazer isso, tudo é dito que Deus é quem faz, e por isso tudo a culpa é de Deus no Antigo Testamento, sobretudo no Antigo Testamento (…) tudo então acabava sendo atribuído a Deus”.

Pastor Calvinista: “Erradamente?”

Pastor Arminiano: ““Erradamente, sem dúvida alguma! Porque Deus não tem a culpa de tudo isso!”.

Onde está a falta de caridade? Para ter certeza de que entendia corretamente o argumento do arminiano, o pastor calvinista torna a pergunta ainda mais específica (como se precisasse):

Pastor Calvinista: “Erros no Antigo Testamento?”

Pastor Arminiano: “Não! Erros na visão teológica de muitos autores bíblicos... nem tudo que a Bíblia narra ela aprova”.

Aqui temos uma boa notícia, e uma má. A boa é que o pastor, de fato, não deve ser acusado de ser um liberal, e neste site jamais o acusamos de tal coisa. A notícia ruim é que, apesar de acreditar que o Antigo Testamento não erra, seu argumento diz exatamente o contrário: o Antigo Testamento errou! Atentem para o eufemismo utilizado pelo pastor arminiano: “Erros na visão teológica de muitos autores bíblicos”. Ora, mas onde é que o pastor leu essa visão teológica errada dos tais autores bíblicos? Foi no Corão? Foi no livro dos Vedas? Foi no Livro de Mórmon? Claro que não! Certamente foi na Bíblia, logo, a Bíblia registrou uma teologia errada, transmitida aos povo de Israel como Palavra de Deus – logo, a Bíblia errou! Pior do que isso: errou e mentiu, porque, segundo o argumento, aquilo não era Palavra de Deus, e sim palavra de homens com uma teologia equivocada.

O mais assustador é a aparente incapacidade de lidar com conceitos teológicos distintos, ainda que relacionados. Vamos demonstrar essa aparente incapacidade de modo breve, antes de encerrarmos:

1) Tanto o pastor arminiano quanto seus defensores, argumentam, por exemplo, que “nem tudo que a Bíblia narra ela aprova”. Isso é verdade! Quando a Bíblia diz que “A” matou “B” não significa que ela aprova o assassinato. Quando a Bíblia diz que “C” estuprou “D” não significa que ela aprova aquela violação. Por exemplo, a Bíblia narra que os habitantes de Sodoma queriam ter relações sexuais os dois anjos que visitam Ló. Ela narra. Não diz que é bom. Mas isso não quer dizer que exista erro na narrativa, ou uma visão teológica “inadvertida” nela, ou em qualquer outra.

2) Tanto o pastor arminiano quanto seus defensores argumentam, ainda, que a Revelação Bíblica foi progressiva. Foi mesmo. Até chegar o Novo Testamento o conceito claro de Trindade, por exemplo, era desconhecido. Mas, quando foi que os autores do Antigo Testamento falaram contra a Trindade? Quando foi que os autores do Antigo Testamento negaram a Trindade? Quando foi que os autores do Antigo Testamento contradisseram o que o Novo Testamento revelou sobre a Trindade? Sim, eles falaram incompletamente, mas nunca contraditoriamente oufalsamente. É verdade que eles não viram a Trindade, mas é igualmente verdadeiro que tudo o que eles viram sobre Deus era a Verdade!

Por outro lado, querem nos convencer que eles viram erradoentenderam errado, e ainda nos transmitiram seus conceitos errados sob o nome de Palavra de Deus? Mas, quando confrontados, gritam “não! Não é isso!”, como se esses conceitos errados eles tivessem encontrados nos livros da Sra. White! Confundindo completamente os próprios conceitos teológicos dos quais se valem em sua defesa, tentam construiu uma apologética – absolutamente desnecessária para sua causa – através de um amontoado de eufemismos.


Não é objeito dessa polêmica aqui no Olhar Anglicano convidar quem quer que seja a abraçar, ou rejeitar, esta ou aquela visão soteriológica. Nossa única preocupação é dizer: não, meus amigos, a Bíblia nunca erra; toda ele é a perfeita Palavra de Deus! É isso que nós, anglicanos reformados, defenderemos, contra os teólogos liberais, ou contra aqueles que, ainda que sem a intenção, flertam com qualquer tipo de ataque as Escrituras."


Nota MCA: Compartilho plenamente da visão do Rev. Marcelo Lemos. E para mais esclarecimenteos sobre o uso que estão fazendo do termo "revelação progressiva" segue o que outro anglicano Reformado, J. I. Packer, ensinou: 

"Visto que o Novo Testamento representa dessa maneira um avanço sobre o Antigo, não podemos falar de revelação como progressiva? Tudo depende do que queremos dizer com “progressiva”. Se o nosso significado é simplesmente que os pronunciamentos de Deus no Antigo Testamento, embora diversos, contribuíram todos de um modo ou de outro para se desenvolvimento, para a vinda do seu Filho, a palavra é bastante aceitável. Mas grande parte da teologia liberal tem usado a palavra para expressar a ideia de que a história da revelação é realmente a história de como os pensamentos de Israel evoluíram, iniciando com algo muito grosseiro (um deus da guerra tribal) por meio de algo mais refinado (um criador moral) para a concepção de Deus ensinada por Jesus (um pai amoroso); e colocou a ideia de maneira tal que implica os cristãos não precisam se preocupar com o Antigo Testamento de modo algum, visto que toda a verdade do ponto de vista de Deus pode ser aprendida no Novo Testamento e todo o restante do que é dito sobre ela é mais ou menos falso. Mas isso não é assim. Deus estava certamente ampliando o conhecimento do povo mediante do povo sobre ele, mediante o processo revelatório, mas a ideia de que o que foi revelado contradiz e cancela o que foi revelado antes, é errada. Foi essa ideia que levou um amplo descaso com o Antigo Testamento. A revelação do Novo Testamento repousa em cada um de seus pontos no Antigo e seus fundamentos, e remover a fundação, uma vez que a superestrutura está no seu devido lugar, é a melhor maneira de deslocar a própria superestrutura. As pessoas que negligenciam o Antigo Testamento jamais poderão entender muito o Novo. Quando, portanto, a frase, “revelação progressiva” é usada coo etiqueta pra esse mito de desenvolvimento religioso evolucionário e, consequentemente, como uma justificação pra desconsiderar o Antigo Testamento, ela é falsa, e visto que a palavra “progressiva” tem sido forçada nesse sentido com muita frequência, é melhor abster-se de usá-la – simplesmente para evitar a confusão – quando for fazer uma colocação sobre a posição bíblica. A crença de que a revelação posterior, longe de se encontrar em conflito com a que foi antes, a pressupõe e a desenvolve a cada período, é mais bem expressa ao denominar o processo revelatório de “cumulativo” em vez de “progressivo”. (Havendo Deus Falado, p.83,84)."

Um comentário:

  1. Olá amigos

    Boa noite

    O livre-arbítrio é a primeira boa obra do ser humano rumo à salvação. Tendo por base o dom de Deus o homem por sua capacidade de ação age em conformidade com a base que lhe é colocada. A vontade humana interage com a base formando assim duas ações a de Deus no homem e a do homem com Deus. Negar que o homem age seria como entender que só Deus age e sendo assim ficaria como só Deus agindo e Deus já fez isso quando o Santo Deus Jesus veio ao mundo em forma humana. Um bom texto para isso é Deuteronômio 30:19.

    Um abraço e felicidades

    Luiz

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