Conforme já explicamos, o alfabeto hebraico não dispunha de símbolos vocálicos. Porém, por volta do 4o. século DC, um grupo de peritos judeus chamados massoretas, acrescentaram - não letras - mas pontos vocálicos aos caracteres hebraicos, de modo a padronizar a pronúncia. Para facilitar o entendimento do leitor, faremos uma analogia com a frase 'ontem fez sol'. Se lermos a sentença sem as vogais, temos:
ntm fz sl
Repare o leitor que a expressão, grafada dessa maneira, lança incerteza quanto à correta pronúncia das palavras. O termo 'sl', por exemplo, dá margem a múltiplas interpretações - alguém poderia tomá-lo como significando 'sal', 'sol' ou 'sul'. A menos que a pessoa estivesse previamente familiarizada com o contexto ou com a pronúncia original, não teria como reconstituir a sentença com precisão. Por outro lado, se tivéssemos de deduzir aleatoriamente que vogais estariam faltando em sentenças como a acima, nossa tentativa de reconstrução do texto original - com grande probabilidade - resultaria em uma deturpação de seu sentido. A mesma dificuldade haveria com relação à pronúncia do nome divino para as pessoas que não pertencessem à comunidade judaica dos tempos pré-cristãos. Esta condição permaneceu durante séculos - enquanto cópias do Antigo Testamento eram feitas - e estendeu-se até a primitiva era cristã. Ilustrando agora o que os massoretas fizeram nos séculos seguintes, apliquemos, na nossa frase de exemplo, as vogais na forma de 'pontos':
ontem fez sol
Agora a pronúncia está clara. Todavia, a analogia que propusemos é limitada, visto que informamos de antemão ao leitor qual era a expressão original. Bem diferente era a situação dos massoretas do 4o. século - no caso deles, somos levados a perguntar: tendo eles introduzido seus sinais vocálicos em uma época em que a pronúncia do nomejá era obscura, como escolheram os pontos vocálicos? Se eles próprios não conheciam o som original - e, mesmo que o conhecessem, teriam escrúpulos quanto a representá-lo graficamente -, quais vogais introduziriam, afinal? A obra Theological Wordbook of the Old Testament [Dicionário Teológico do Velho Testamento], 1980, Vol. 1, p. 13, elucida o mistério:
"Para evitar o risco de tomar o nome de Deus... em vão, judeus devotos começaram a substituir o nome próprio pela palavra ['adonay']. Embora os massoretas deixassem as quatro consoantes originais no texto, acrescentaram as vogais 'e'... e 'a' para lembrar o leitor de pronunciar 'adonay', sem considerar as consoantes." (negrito acrescentado)
Vemos, assim, que os massoretas tinham de tomar uma decisão: reproduzir o tetragrama hebraico em forma pura ou simplesmente transcrever, em seu lugar, o vocábulo adonay (kyrios em grego) - consagrado há séculos e bem conhecido do público ao qual o texto se destinava. Na primeira hipótese, teriam um sentimento de fidelidade ao texto hebraico primitivo, porém a inteligibilidade da cópia sofreria; na segunda hipótese, priorizava-se a compreensão da palavra, aceitando-se como preço o desvio do texto original. Os massoretas preferiram adotar, para este impasse, uma solução intermediária, a saber, a criação de uma palavra híbrida - resultado da intercalação das consoantes de um nome, cuja pronúncia havia se perdido séculos antes, com as vogais de um substitutivo amplamente consagrado pela tradição judaica. As consoantes eram oriundas do tetragrama hebraico e os sinais vocálicos, da expressão ED - ON - AY (correspondente a adonay ou 'Senhor') e Elohim ('Deus'), as quais,diferentemente do nome divino, foram traduzidas para o grego. O resultado final foi:
Como o leitor daqueles tempos lia a palavra acima? Segundo a obra há pouco mencionada, ao deparar-se com a expressão criada pelos massoretas, ele pronunciava, em sua língua, 'Senhor', já que a pronúncia literal não faria sentido algum. Em outros palavras, estamos diante de um circunlóquio, ou seja, uma expressão pronunciável que substitui uma outra impronunciável. É importante que guardemos este conceito, pois voltaremos a tratar dele mais adiante.
O livro ajuda ao Entendimento da Bíblia - publicado pelas Testemunhas de Jeová -, pp. 884,885 (em inglês), diz:
"Por combinar os sinais vocálicos de 'Adonay' e 'Elohim' com as quatro consoantes do tetragrama, as pronúncias 'Yehowah' e 'Yehowih' foram formadas. A primeira destas proveu a base para a forma latinizada 'Jeova(h)'. O primeiro registro de uso dessa forma data do século 13 DC. Raimundus Martini, um monge espanhol da Ordem Dominicana, a usou..." (negrito acrescentado)
Perceba o leitor que o primeiro uso do nome hoje adotado pelas Testemunhas de Jeová não começou com a igreja cristã primitiva. Formou-se mais de um milênio após o surgimento dela, por intermédio de um monge católico. Como trata-se de uma palavra híbrida - a aglutinação das consoantes 'Y-H-V-H' (oriundas do tetragrama) com as vogais 'e-o-a' (retiradas do termo 'Senhor' em hebraico) -, concluímos que apenas a porção consonantal da tradução do nome original poderia estar sendo pronunciada hoje pelas Testemunhas de Jeová, pois a porção vocálica pertence a um substitutivo. Querendo ou não, isto significa que, pelo menos em parte, aquele substitutivo - 'Senhor' - ainda é usado por elas. Em outras palavras, o vocábulo 'Jeová', em si mesmo, é um circunlóquio, oriundo da combinação de duas palavras de sentidos e pronúncias diferentes. Equivaleria a combinar as consoantes do nome 'B-a-a-l' (deidade dos antigos caldeus) com as vogais da palavra 'S-e-n-h-o-r'. O resultado seria 'Belo', uma palavra com pronúncia e sentido totalmente distintos das anteriores. Com efeito, a intenção dos massoretas do 4o. século não era a de remeter o leitor à pronúncia original - até porque isso seria impossível àquela altura -, mas tão-somente o de induzi-lo a pronunciar "Senhor" diante do tetragrama, como já era o costume secular. A preservação das consoantes hebraicas visava, basicamente, a manter a fidelidade ao Antigo Testamento. Diante do exposto, não podemos concluir senão que os editores da TNM insistem hoje - em nome da reverência a Deus - no uso do amálgama YHVH/adonay, um código cuja pronúncia literal não fazia qualquer sentido para os judeus do 1o. século, tendo sido introduzida por um monge da Ordem Dominicana, no século 13.
Em confirmação a esta conclusão, vejamos como algumas respeitadas obras seculares definem o nome 'Jeová':
"Erro de pronúncia do tetragrama, ou palavra de quatro letras do nome de Deus... a palavra Jehovah, portanto, é erroneamente lida; para esta não há garantia e não faz sentido em hebraico." - A Enciclopédia Judaica Universal
"Jeová, nome do Deus do povo hebreu, conforme erroneamente transliterado do texto massorético hebraico... Os tradutores do hebraico, não percebendo o que os escribas tinham feito, leram a palavra do modo como foi escrita, considerando os sinais vocálicos como intrínsecos ao nome de seu Deus, ao invés de um mero lembrete para não pronunciá-lo." - Enciclopédia Encarta (1999)
Existem, até hoje, controvérsias quanto à correta pronúncia de
, havendo algumas alternativas como Javé, Iavé etc., todas elas gramaticalmente possíveis. Todavia, a forma correta - qualquer que seja ela - não pode seraquela eleita pela Sociedade Torre de Vigia, já que, como vimos, tal termo provém de um erro grosseiro de leitura, o qual tornou-se tradicional. Segundo alguns peritos em línguas mortas, há evidências fortes em favor da formaIahweh - amplamente utilizada, por exemplo, na Bíblia de Jerusalém (1973). No entanto, a Sociedade Torre de Vigia justifica a adoção da forma 'Jeová' por ser ela "há muito aceita" (TNM, p. 6). De fato, no apêndice 1A da TNM, a comissão tradutora reconhece que sua tradução "continua a usar a forma Jeová, por causa da familiaridade das pessoas com ela já por séculos" (p. 1501). Dito de outra forma, o emprego da palavra, bem como sua introdução naTNM, foram alicerçados na 'tradição' - uma prática já qualificada pela Sociedade como uma das 'contaminações' que 'infestam' outras traduções da Bíblia. Deveras, as tradições têm muita força. Para ilustrar, seria bem pouco provável, após todos estes anos, que o movimento religioso "Testemunhas de Jeová" subitamente alterasse seu nome para "Testemunhas de Iavé", caso estudos mais recentes apontassem com boa margem de confiança para esta forma, ao invés daquela preferida e consagrada entre seus membros desde os anos 30. A tradição continua a ter um relevante papel na cultura cristã atual, assim como tinha para os cristãos do primeiro século.
Confrontados com estes fatos, os editores da TNM enfatizam o aspecto da intenção, colocando a questão técnica da pronúncia em um plano secundário ("O Nome Divino que Durará para Sempre", 1984, p.7). Neste caso, vêm à tona algumas indagações: não é o uso do tetragrama pelos cristãos na atualidade, em si mesmo, uma questão técnica? Por outro lado, manifesta aquele que usa a forma 'Jeová' sentimentos melhores ou mais nobresdo que aquele que usa as formas 'El-Shadday', 'Senhor' ou simplesmente 'Deus'? Não têm ambos a mesmaintenção? Não têm em mente o mesmo ser, ou seja, o Deus Todo-Poderoso? Um segundo argumento de que a Sociedade Torre de Vigia lança mão é o de que 'Senhor' e 'Deus' não passam de títulos - há muitos 'senhores' ou deuses' (livro "Ajuda ao Entendimento da Bíblia" , p. 847). Todavia, esta é uma sutileza idiomática, pois, segundo o perito alemão Gesenius, na língua hebraica, a palavra 'adonay' - vertida em português como 'Senhor' - é aplicada exclusivamente a Deus. Em outras palavras, os judeus haviam criado uma forma alternativa, porém não comum, para o tetragrama. Ainda hoje, eles manifestam enorme reverência para com ela, reservando-a para ocasiões especiais - no cotidiano, preferem referir-se a Deus pela expressão "O Nome" ("ha'Shem"). Os termos para 'senhor' no sentido comum são adhoni ou adhon. Na própria Bíblia há exemplos do uso destes termos em sentido geral (o relato em I Samuel 1: 15, 26 é um deles), contrastando nitidamente com as passagens dirigidas a Deus. Eis aí a chave do problema - três palavras diferentes, mas uma só tradução. Para contornar o obstáculo lingüístico, muitos tradutores vertem o nome em versalete - 'SENHOR' -, indicando um termo específico na língua original. Quanto à forma hebraica plural 'Elohim', traduzida 'Deus' (embora, ao pé da letra, signifique 'deuses'), há um problema semelhante, pois ela não ocorre em qualquer outra língua semítica, nem mesmo no aramaico. Ademais, no primeiro capítulo de Gênesis, Deus é identificado apenas por este termo. Embora 'Elohim' raramente seja aplicado a deidades pagãs no Antigo Testamento, a forma como isso é feito difere significativamente - o vocábulo é seguido de verbo no plural, ao passo que, quando aplicado a Deus, o verbo ocorre no singular. Trata-se, pois, de uma construção bem peculiar, imperceptível em outras línguas. Diante destes aspectos, não é de estranhar que os tradutores modernos não se sentissem perturbados pelo uso dos termos correspondentes, 'Senhor' e 'Deus' - ambos consagrados pelos primitivos cristãos. No entanto, a comissão tradutora da TNM condena, de forma veemente, esta prática:
"A maior indignidade que tradutores modernos causam a Autor divino das Escrituras Sagradas é a ocultação desse seu peculiar nome pessoal... Por usarmos o nome 'Jeová', apegamo-nos de perto aos textos da língua original e não seguimos a prática de substituir o nome divino... por títulos tais como 'Senhor', 'o Senhor', 'Adonai' ou 'Deus'. (TNM, p. 1501)
São razoáveis as palavras acima? Foram os tradutores realmente 'indignos' ao traduzirem o nome divino por 'Deus' ou 'Senhor'? 'Apegou-se', de fato, aos textos da língua original a comissão tradutora da TNM por traduzir uma forma híbrida do tetragrama para uma forma popularmente aceita em uma língua gentia? Agiu ela de modo mais louvável do que os antigos copistas das Escrituras Sagradas, bem como outras comissões tradutoras de inúmeras versões da Bíblia? Um exame minucioso das evidências arqueológicas poderá lançar uma luz sobre o assunto.
Antes de prosseguirmos, é importante enfatizarmos nosso objetivo: aferir o uso ou não do tetragrama pelos escritores do Novo Testamento. Onde procuraremos a resposta? Em nossas preferências teológicas? Em nossas convicções pessoais? Em nossa própria interpretação da Bíblia? Não, mas no inteiro conjunto de evidências arqueológicas de que dispomos. Cremos que, se o tetragrama estava presente no texto cristão, não é correto retirá-lo, mas, se não estava, não é correto inseri-lo."