Mostrando postagens com marcador "Erros e Contradições" da Biblia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador "Erros e Contradições" da Biblia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de março de 2015

Rev. Marcelo Lemos: um arminiano flertando com o liberalismo?

"Acredito ter ficado claro no primeiro artigo – Flertando com o Liberalismo? - duas coisas: primeiro, que não escrevi motivado pelo debate Calvinismo X Arminianismo, ainda que eu mesmo seja um calvinista; segundo, que não estou acusando o pastor arminiano presente ao debate de ser, de fato, um liberal. 

Entretanto, o que vimos acontecer no debate do programa “Vejam Só!”, da Rit, semana passada foi, mesmo que sem intenção, um flerte com o liberalismo. E o fato de que o pastor arminiano, e seus defensores, não consigam perceber isso é tanto decepcionante quanto assustador.


Vou citar aqui, uma vez que o debate persiste,  o principal argumento usado para defender a posição que o pastor arminiano defendeu no debate da RIT. O argumento que analisarei aqui pode ser encontrado no maior portal em defesa da teologia arminiana no Brasil (Arminianismo.Com). Trata-se de um argumento usado pelo site, e também por vários arminianos no Facebook – ainda que até mesmo irmãos arminianos repudiam a confusão feita no debate, e perpetuada depois por muitos.

“Como não havia um desenvolvimento teológico a respeito dos agentes (o diabo e seus anjos, por exemplo) que também atuam no universo criado por Deus, tudo era atribuído a Deus, até porque, de uma forma ou de outra, tudo está sob o seu controle, mesmo quando algo é feito por intermédio de outro. Os casos de Jó e Davi (a respeito do censo que ele levantou) são clássicos. Ainda que aqueles males tenham sido provocados pelo diabo, eles são atribuídos a Deus”.

Esse argumento, admito, é muito melhor que o argumento usado pelo pastor arminiano durante o debate. Porque nesse argumento ao menos se admite que “tudo está sob o controle de Deus”, então, Deus é a fonte de tudo. Perfeito. Aliás, esse raciocínio, como argumentou Graconato no debate, coloca tanto arminianos quanto calvinistas no mesmo barco a respeito da causa primeira de todas as coisas. Agora, ainda que o pastor arminiano tenha desejado falar a mesma coisa, não foi o que ele fez. Suas palavras foram: “(...) todas as coisas sãoinadvertidamente atribuídas a Ele, é por isso que nós vemos I Samuel 1 dizer lá que Deus “cerrou a madre de ana”... Como não tem ninguém para fazer isso, tudo é dito que Deus é quem faz, e por isso tudo a culpa é de Deus no Antigo Testamento, sobretudo no Antigo Testamento”.

Observe a diferença entre o argumento usado pelo site Arminianismo.Com e o argumento usado pelo pastor arminiano. Para o site é dito que a culpa é Deus porque, de certa forma , Deus controla todas as coisas. Mas para o pastor, tudo é atribuído a Deus porque os autores escreveram “inadvertidamente”. Ora, no primeiro caso o site está interpretando o texto bíblico, sem lançar contra ele um juízo negativo de valor, já no segundo está claramente sendo dito que o texto errou. Interpretar é coisa legítima, mesmo quando se erra, mas fazer juízo negativo contra o conteúdo do texto é liberalismo – não importa que o maior site arminiano do Brasil tente dizer o contrário.

No entanto, mesmo o site Arminianismo.com cai no erro de atribuir imperfeição ao texto bíblico; se é verdade que o parágrafo citado termina bem, seu começo é um ataque contra a inerrância bíblica, porque o autor diz: “Como não havia um desenvolvimento teológico a respeito dos agentes (o diabo e seus anjos, por exemplo) que também atuam no universo criado por Deus, tudo era atribuído a Deus”. Afinal, porque a Bíblia diz no Antigo Testamento que Deus criou este ou aquele mau? Ela fez isso porque seus escritores eram ignorantes, ou ela fez isso porque, de alguma forma, Deus realmente controla todas as coisas? Um arminiano pode simplesmente ficar com a segunda hipotese, e com isso aceitar que a Bíblia não erra. Mas não é o que o pastor fez lá na RIT, e não é, infelizmente, o que o site Arminianismo.com publicou em sua página. Para ambos, os autores impregnaram o texto bíblico com seus erros teológicos.

Acerca de todo o debate que se gerou depois do programa, o site arminiano declara o seguinte: “a acusação do Graconato e dos calvinistas é injusta. O Pastor não afirmou que a Bíblia contém erros, poderia dar a eles pelo menos o benefício da dúvida”. Como já afirmei no primeiro artigo, minha opinião é que o pastor arminiano realmente usou um péssimo argumento, sem se dar conta das implicações lógicas do mesmo. Longe de mim acusar o pastor de liberal – mas que certo aspecto de seu argumento é o mesmo da neo-ortodoxia, sem dúvida o é. E não apenas o argumento dele flerta com o liberalismo, o mesmo fazem todos aqueles que, com argumentos semelhantes, tentam salvá-lo. E repito: nenhum arminiano precisa disso, e aqueles que se apegam a tal, apenas demonstram quão frágil é sua teologia, a ponto de precisarem atacar a própria Escritura em sua defesa.

Quanto a deixar que o pastor arminiano se defenda, sou completamente a favor. No entanto, durante o debate, não ficou nenhuma dúvida sobre o que ele estava dizendo sobre os autores bíblicos terem feito afirmações erradas. Não importa quanto o site arminiano acuse o Pastor Graconato de ter tratado seu colega com falta de caridade, a verdade é que o calvinista o interrogou lá mesmo; acompanhe a transcrição que fiz:

Pastor Arminiano: “todas as coisas são “inadvertidamente” atribuídas a Ele, é por isso que nós vemos I Samuel 1 dizer lá que Deus “cerrou a madre de ana”... Como não tem ninguém para fazer isso, tudo é dito que Deus é quem faz, e por isso tudo a culpa é de Deus no Antigo Testamento, sobretudo no Antigo Testamento (…) tudo então acabava sendo atribuído a Deus”.

Pastor Calvinista: “Erradamente?”

Pastor Arminiano: ““Erradamente, sem dúvida alguma! Porque Deus não tem a culpa de tudo isso!”.

Onde está a falta de caridade? Para ter certeza de que entendia corretamente o argumento do arminiano, o pastor calvinista torna a pergunta ainda mais específica (como se precisasse):

Pastor Calvinista: “Erros no Antigo Testamento?”

Pastor Arminiano: “Não! Erros na visão teológica de muitos autores bíblicos... nem tudo que a Bíblia narra ela aprova”.

Aqui temos uma boa notícia, e uma má. A boa é que o pastor, de fato, não deve ser acusado de ser um liberal, e neste site jamais o acusamos de tal coisa. A notícia ruim é que, apesar de acreditar que o Antigo Testamento não erra, seu argumento diz exatamente o contrário: o Antigo Testamento errou! Atentem para o eufemismo utilizado pelo pastor arminiano: “Erros na visão teológica de muitos autores bíblicos”. Ora, mas onde é que o pastor leu essa visão teológica errada dos tais autores bíblicos? Foi no Corão? Foi no livro dos Vedas? Foi no Livro de Mórmon? Claro que não! Certamente foi na Bíblia, logo, a Bíblia registrou uma teologia errada, transmitida aos povo de Israel como Palavra de Deus – logo, a Bíblia errou! Pior do que isso: errou e mentiu, porque, segundo o argumento, aquilo não era Palavra de Deus, e sim palavra de homens com uma teologia equivocada.

O mais assustador é a aparente incapacidade de lidar com conceitos teológicos distintos, ainda que relacionados. Vamos demonstrar essa aparente incapacidade de modo breve, antes de encerrarmos:

1) Tanto o pastor arminiano quanto seus defensores, argumentam, por exemplo, que “nem tudo que a Bíblia narra ela aprova”. Isso é verdade! Quando a Bíblia diz que “A” matou “B” não significa que ela aprova o assassinato. Quando a Bíblia diz que “C” estuprou “D” não significa que ela aprova aquela violação. Por exemplo, a Bíblia narra que os habitantes de Sodoma queriam ter relações sexuais os dois anjos que visitam Ló. Ela narra. Não diz que é bom. Mas isso não quer dizer que exista erro na narrativa, ou uma visão teológica “inadvertida” nela, ou em qualquer outra.

2) Tanto o pastor arminiano quanto seus defensores argumentam, ainda, que a Revelação Bíblica foi progressiva. Foi mesmo. Até chegar o Novo Testamento o conceito claro de Trindade, por exemplo, era desconhecido. Mas, quando foi que os autores do Antigo Testamento falaram contra a Trindade? Quando foi que os autores do Antigo Testamento negaram a Trindade? Quando foi que os autores do Antigo Testamento contradisseram o que o Novo Testamento revelou sobre a Trindade? Sim, eles falaram incompletamente, mas nunca contraditoriamente oufalsamente. É verdade que eles não viram a Trindade, mas é igualmente verdadeiro que tudo o que eles viram sobre Deus era a Verdade!

Por outro lado, querem nos convencer que eles viram errado, entenderam errado, e ainda nos transmitiram seus conceitos errados sob o nome de Palavra de Deus? Mas, quando confrontados, gritam “não! Não é isso!”, como se esses conceitos errados eles tivessem encontrados nos livros da Sra. White! Confundindo completamente os próprios conceitos teológicos dos quais se valem em sua defesa, tentam construiu uma apologética – absolutamente desnecessária para sua causa – através de um amontoado de eufemismos.


Não é objeito dessa polêmica aqui no Olhar Anglicano convidar quem quer que seja a abraçar, ou rejeitar, esta ou aquela visão soteriológica. Nossa única preocupação é dizer: não, meus amigos, a Bíblia nunca erra; toda ele é a perfeita Palavra de Deus! É isso que nós, anglicanos reformados, defenderemos, contra os teólogos liberais, ou contra aqueles que, ainda que sem a intenção, flertam com qualquer tipo de ataque as Escrituras."


Nota MCA: Compartilho plenamente da visão do Rev. Marcelo Lemos. E para mais esclarecimenteos sobre o uso que estão fazendo do termo "revelação progressiva" segue o que outro anglicano Reformado, J. I. Packer, ensinou: 

"Visto que o Novo Testamento representa dessa maneira um avanço sobre o Antigo, não podemos falar de revelação como progressiva? Tudo depende do que queremos dizer com “progressiva”. Se o nosso significado é simplesmente que os pronunciamentos de Deus no Antigo Testamento, embora diversos, contribuíram todos de um modo ou de outro para se desenvolvimento, para a vinda do seu Filho, a palavra é bastante aceitável. Mas grande parte da teologia liberal tem usado a palavra para expressar a ideia de que a história da revelação é realmente a história de como os pensamentos de Israel evoluíram, iniciando com algo muito grosseiro (um deus da guerra tribal) por meio de algo mais refinado (um criador moral) para a concepção de Deus ensinada por Jesus (um pai amoroso); e colocou a ideia de maneira tal que implica os cristãos não precisam se preocupar com o Antigo Testamento de modo algum, visto que toda a verdade do ponto de vista de Deus pode ser aprendida no Novo Testamento e todo o restante do que é dito sobre ela é mais ou menos falso. Mas isso não é assim. Deus estava certamente ampliando o conhecimento do povo mediante do povo sobre ele, mediante o processo revelatório, mas a ideia de que o que foi revelado contradiz e cancela o que foi revelado antes, é errada. Foi essa ideia que levou um amplo descaso com o Antigo Testamento. A revelação do Novo Testamento repousa em cada um de seus pontos no Antigo e seus fundamentos, e remover a fundação, uma vez que a superestrutura está no seu devido lugar, é a melhor maneira de deslocar a própria superestrutura. As pessoas que negligenciam o Antigo Testamento jamais poderão entender muito o Novo. Quando, portanto, a frase, “revelação progressiva” é usada coo etiqueta pra esse mito de desenvolvimento religioso evolucionário e, consequentemente, como uma justificação pra desconsiderar o Antigo Testamento, ela é falsa, e visto que a palavra “progressiva” tem sido forçada nesse sentido com muita frequência, é melhor abster-se de usá-la – simplesmente para evitar a confusão – quando for fazer uma colocação sobre a posição bíblica. A crença de que a revelação posterior, longe de se encontrar em conflito com a que foi antes, a pressupõe e a desenvolve a cada período, é mais bem expressa ao denominar o processo revelatório de “cumulativo” em vez de “progressivo”. (Havendo Deus Falado, p.83,84)."

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A Inerrância Bíblica - é de importância secundária?

Quando lemos que seitas como Mórmons, Adventistas, Espíritas, Testemunhas de Jeová*, Teólogos Liberais, Muçulmanos, dentre outros, negam a inerrância bíblica, é algo que não deveria nos surpreender. Porém, é triste saber e ver cristãos das fileiras evangélicas e protestantes aderindo à argumentação de que a Bíblia é inerrante em matéria de doutrina e não necessariamente em tudo o que diz. 

Nomes de apologistas como Alister McGrath, William L. Craig, não são identificados como crendo na inerrância bíblica. Teólogos como Daniel Fuller, Stephen Davis, Willliam LaSor, James Orr, Jack Rogers, G. C. Berkouwer, como atesta a Teologia Sistemática de Myatt e Ferreira, também não creem na inerrância absoluta (p. 105). Um verdadeiro cristão Reformado, e as demais correntes cristãs, defendem a inerrância como defendeu a Confissão de Fé de Westminster, que a Escritura possui “completa perfeição” (Cap. 1:5)

Não compartilho da visão de que esse assunto é secundário. Estamos falando da sustentação e integridade da revelação de todo assunto da fé. Se o texto que nos revela Deus (Sl 19.7-10; Jo 17.17), está sob tal conceito medíocre, já não temos uma base sólida para nos apegar. Sem inerrância não há inspiração divina. A inspiração exige a inerrância, e inerrância só existe onde há inspiração divina. Se o que João ou Lucas disseram o que Jesus disse – e isso é verdade, mas o que eles disseram a respeito dele em matéria histórica ‘pode’ser ou não, inerrante, estamos definitivamente perdidos com as informações que recebemos dos mesmos a respeito do que ele disse. Também, como afirmou Archer:

“Quase todas as doutrinas centrais da Escritura inserem-se em textos de estruturas históricas e muito comumente num contexto sobrenatural.” (Enciclopédia de dificuldades bíblicas, p. 27). Obs: Nesse livro, o autor oferece argumentação sólida das páginas 19 a 47, em defesa da inerrância plenária da bíblia.

Em momento algum na Escritura há a separação da inspiração do conteúdo. A Igreja do Novo Testamento, quando lia a Escritura, dizia que era Deus falando. Não importava o que estava no conteúdo da porção referenciada, a Escritura tinha autoridade divina (Mt 5.17,18; Rm 9.17; II Pe 1.20). O Nosso Senhor Jesus Cristo cria na inerrância. Criação, fatos históricos, etc., foram mencionados pelo Senhor sem ressalvas.

Alguns promotores do erro afirmam que o fato de Deus usar pessoas, e visto que pessoas são imperfeitas, é normal existir erros na Escritura. Essas pessoas comentem um engano de princípio. Uma pessoa vai errar e falhar sob suas condições naturais enquanto Deus não a preservar de erros.  Se, estamos dizendo que ela é inspirada por Deus é um recado de que o que está sendo escrito vem de Deus e não dela!!! (II Tm 3.15-17).

Além disso, a doutrina da inspiração não nega a identidade e capacidade do veículo humano, mas sim, que o mesmo está sob os cuidados do Autor que não erra:

“Na realidade, a doutrina da inspiração plena não nega individualidade dos escritores bíblicos; ela não ignora o uso que fizeram de meios ordinários para a aquisição de informação; ela não envolve qualquer falta de interesse nas situações históricas que deram origem aos livros bíblicos. O que ela nega é a presença de erros na Bíblia. Ela supõe que o Espírito Santo informou as mentes dos escritores bíblicos de tal forma que eles foram impedidos de cometerem os erros que danificam outros livros.” (Cristianismo e Liberalismo, p. 79).

Existem dificuldades de entendermos certos relatos bíblicos, sim é verdade. Existem contradições entre afirmações bíblicas e algum registro histórico, sim existe. A ciência e a Bíblia se desentendem em alguns pontos, sim. Mas isso não significa erros. Diante disso, o já citado autor conservador, G. Archer, dá algumas sugestões interessantes, que resumo a seguir (Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas, p15-17):

1.      Esteja persuadido de que existe uma explicação satisfatória para a dificuldade, ainda que você não a tenha encontrado.
2.      Não seja precipitado em aceitar como erro qualquer problema Escriturístico.
3.      Estudo o contexto da passagem e suas implicações linguísticas e compare com o resto da Bíblia.
4.      Exegese bíblica é uma ciência que deve ser consultada.
5.      Procure harmonizar as passagens que possuem discrepâncias.
6.      Recorra aos cristãos fieis do cristianismo.
7.      Há problemas nas cópias dos  manuscritos de algum escriba não inspirado [Veja Greg L. Bahansen em A Inerrância da Bíblia, pp. 185-232 – também disponível no site monergismo.com. Esse livro foi organizado pelo cristão e apologista conservador Norman Geisler, como resultado das conferências de Chicago a respeito da Inerrância, com a colaboração de diversos cristãos ortodoxos de várias denominações cristãs].
8.      A Bíblia também é um documento arqueológico de peso.

Portanto, e por muito mais, creio na inerrância absoluta plena da Escritura. Não considero cristão ortodoxo quem nega essa verdade. Se entre arminianos, calvinistas, pentecostais, etc., o veneno mortífero começa a escorrer nas veias, não esperem que eu encarem os mesmo como cristãos: "[...] parece apropriado dizer que muitas igrejas protestantes liberais são na realidade falsas igrejas.” (Wayne Grudem. Teologia Sistemática, p 726). Concordo plenamente.




* No caso das Testemunhas de Jeová, não se atribuem alguma limitação à inspiração, mas que Deus não preservou os MSS do NT íntegros – já que a liderança TJ afirma ter restaurado o nome de Deus no NT, sem nenhum apoio científico (isto é, em algum manuscrito): “Aconteceu algo com o texto das Escrituras Gregas Cristãs [o NT] antes do quarto século que resultou na omissão do nome de Deus? Os fatos provam que sim.” (O Nome Divino, p.24). os ‘fatos’ são apenas especulações, visto que os

MSS antes do quarto século não apresentam o nome divino no texto do NT. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

I João 5.7


Por Marcelo Lemos

"Imagine que, durante uma pregação ou aula, você peça que a congregação leiaI João 5.7, onde você lê: “Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um!”. Nem bem você termina a leitura, e alguém levanta a mão: “Ei, pastor, não tem nada disso na minha Bíblia”. De fato, na maioria das traduções modernas a maior parte do conteúdo deste versículo foi completamente extirpada. Qual a razão disso!!

Há, ao menos, duas respostas a esta questão. Alguns afirmam que trata-se de uma conspiração diabólica, cuja intenção é minar as bases bíblicas para a Doutrina da Trindade; o outro lado afirma que suas razões baseiam-se em fatos científicos, que comprovariam que este versículo não consta na maioria dos manuscritos gregos. Não são as únicas explicações, são as mais comuns. Uma outra resposta, menos conhecida do grande publico, foi proposta por Edwards Freer Hills. Segundo o Dr. Hills, I João 5.7 não foi um “parentese” acrescentado, mas sim, suprimido pela Igreja Grega quando da disputa contra os sabelianos (modalistas). Isso explicaria a razão dos textos gregos suprimirem tais palavras, enquanto que nas versões latinas o texto é melhor atestado.

Explicando o “parentese joanino”, ou, A evidencia contraria...

Tendo em vista que a maior parte das traduções bíblicas utilizadas pelas Igrejas herdeiras da Reforma terem se baseado no famoso Texto Receptus, que fora compilado pelo católico Erasmus, poucas pessoas identificavam qualquer problema em I João 5.7, apesar do próprio Erasmus só ter incluído as palavras em disputa hoje, após ter sido duramente criticado – em sua compilação original não havia as palavras hoje em disputa, o que ele justificou alegando não ter encontrado nenhum manuscrito que o contivesse. Devido as críticas, prometeu que se alguém lhe mostrasse pelo menos um manuscrito com aquelas palavras, as incluiria nas versões futuras; e assim aconteceu.

A primeira edição do Textus Receptus (1516), e também a segunda (1519), não continham o disputado “Comma Johanneum”. Ele seria incluído, porém, nas edições futuras, na quarta (1522), na quinta (1527), e na sexta (1535). O texto também não aparece em nenhuma versão do Texto Majoritário, nem na tradução alemã feita por Lutero (1522), que foi baseada na segunda edição do texto de Eramus, que fora publicado em 1519.

O texto porém faz parte de outras versões igualmente famosas, a começar pela Vulgata Latina, de Jeronimo (380-400 d.C.); nas edições posteriores do Textus Receptus editadas por Stephens (1546, 1550, e 1551), também no editado por Beza (1598), por Elzevir (1624 e 1633), e no editado por Scrivener (1894). Todas as versões bíblicas traduzidas a partir destes textos, incluem o “Parentese Joanino”, o que inclui a famosíssima Kinga James Version, utilizada quase universalmente por todas as Igrejas herdeiras da Reforma, e outras traduções igualmente dignas, como a João Ferreira de Almeida (português), e a Reina-Valera (espanhol), dentre outras.

A favor do “Parentese Joanino”.

Seus próprios defensores admitem haver muito pouco de evidencia textual para sustentá-lo. Os manuscritos que trazem o “Parentese” são entre quatro ou oito, dependendo da metodologia, haja vista que dentre eles, há manuscritos que trazem o parêntese anotado na margem, e não no corpo da carta. São evidencias muito fracas.

A tese já citada do Dr. Hills nos parece a mais interessante numa empreitada pela defesa do “Parentese”, e, além disso, nos mostra o quanto ainda não conhecemos sobre os primórdios da Igreja – o que certamente nos freia o impulso de simplesmente ir cortando isso ou aquilo do texto sagrado. No entanto, a tese de Hills não soluciona a falta de evidencia textual. Mas, trata-se de campo a ser investigado. Honestamente, não sei dizer se alguém já comprovou ou refutou a referida tese.

Com evidencia textual tão fraca, o melhor argumento dos defensores do “Parentese” apela para a evidencia interna da Carta de João. Alegam, e acertamente, que a exclusão do “Parentese” cria um certa incongruência na gramatica do texto. Isso, até onde vejo, é verdade. É, alias, o argumento que me faz ter cautela, e continuar usando o 'parêntese' sem nenhuma dor na consciência, até que explicação plausível para este problema gramatical chegue ao meu conhecimento.

Algumas considerações finais.

Como vimos, até mesmo os maiores defensores da autenticidade do parêntese Joanino, admitem que o versículo possui pouca sustentação, no entanto, se apegam a argumentos razoáveis na defesa de sua autenticidade, especialmente a coerência gramatical interna. Nos parece certo que as provasexternas – ou seja, manuscritos - mais contundentes apontam contra a autenticidade da mesma. Eu gostaria, então, de concluir este pequeno artigo compartilhando da opinião de A.A. Hodge, grande teólogo reformado:

“a) Entre os homens ilustrados e piedosos há diferença de opiniões quanto à preponderancia das evidencias; as mais abalizadas inclinam-se contra a genuinidade da cláusula.

b) A doutrina ensinada nessa passagem é tão bíblica, e é tão íntima a conexão gramatical e lógica da cláusula com o contexto, que, para edificação, e no estado atual do nosso conhecimento, devemos retê-la, mas não devemos citá-la para estabelecer doutrina.

c) A rejeição dessa passagem de modo algum diminui a força irresistível das provas fornecidas pelas Escrituras a favor da doutrina ortodoxa sobre a Trindade” (HODGE. A.A.; Esboços de Teologia Sistemática; pg. 238).

Em outras palavras, não vejo quem rejeita o “Parentese Joanino” como membro de uma conspiração diabólica contra a Doutrina da Trindade. Acredito que se o texto foi originalmente interpolado, se deu para a defesa da mesma, e caso tenha sido originalmente extirpado, se deu pelo menos motivo, mas num contexto diferente. Garanto aos irmãos que posso, sem nenhum problema, esmagar todos os argumentos contra a Trindade usando uma versão bíblica que não contenha o 'Parêntese', risos.

Minha opção pessoal, para deixar claro, é pela manutenção do 'parêntese', não devido a evidencia textual, pois esta é contrariamente esmagadora, mas pela questão gramatical envolvida. Entretanto, admito que quem rejeita o texto, tem motivos tão bons quanto os meus, e talvez até maiores.