Presbiterianismo
e Pentecostalismo no Brasil – Tensões históricas e distensões recentes (parte
1)
Autor - Éber Ferreira Silveira Lima
Introdução
A relação
entre presbiterianismo e pentecostalismo no Brasil, regra geral, tem sido rude.
Tanto a igreja presbiteriana do Brasil quanto a Igreja Presbiteriana
independente do Brasil (IPB e IPI respectivamente, as duas maiores confissões
calvinistas do Pais enfrentam situações de dissidência que ocasionaram cismas
importantes, especialmente na década de 70, em face de grupos pentecostalizados
no seio dessas denominações.
As
dificuldades do presbiterianismo com o pentecostalismo, no entanto, não se
limitam a esses cismas. Pode-se dizer que, em termos de fé e ordem, executadas
as questões políticas internas de desavenças com o catolicismo, as tensões com
o pentecostalismo tem se constituído no principal problema do presbiterianismo
brasileiro. Esse quadro possivelmente resultou do próprio modelo eclesiástico
presbiteriano adotado no Brasil, baseado na figura do pastor que detém a
primazia do ministério cristão. Ou ainda da forte herança racionalista que se
concretiza no corpo doutrinário, mais valorizado do que experiência religiosa.
Percebe-se, porém, na presente década, um movimento intenso, até de ordem
institucional no sentido de acomodar tendência neopentecostais nas confissões
presbiterianas brasileiras. Tal movimento responde ao avanço ao
neo-pentecostalismo nas décadas 80 e 90, e procura atender consideráveis
setores pertença protestante histórica insatisfeita com os modelos
tradicionalmente adotados. O desgaste social das classes médias tem contribuído
para lançar as mesmas nos braços de uma nova proposta de fé, onde o espaço
eclesial se apresenta como um super mercado de bens religiosos. Por outro lado,
as novas adesões ao protestantismo, já devidamente influenciadas pela mídia
evangélica, tem exigências e expectativas religiosas que só podem satisfeitas pela
teologia e pela prática pelo neo-pentecostalismo. Então a acomodação do
neo-pentecostalismo por parte dos presbiterianos é uma atitude de sobrevivência
no universo evangélico brasileiro, uma forma de atender o mesmo público ao qual
historicamente está ligado.
Tem havido
reações e resistências e tais distensões, especialmente por parte de setores
com raízes mais profundas na história dessas denominações. Tais resistências,
porém, não se encontram em condições de determinar a repulsão neopentecostal no
presbiterianismo. Quando muito, tem diminuído a velocidade na absorção dos
grupos carismáticos as suas praticas pelas comunidades presbiterianas locais. O
presbiterianismo brasileiro está mudando institucional, doutrinária e
liturgicamente, inspirado na versão recente do pentecostalismo que tanto
combateu. Nosso trabalho procurará mapear, ainda que sinteticamente, a história
dessas relações nas diferentes denominações presbiterianas brasileiras
apontando para as transformações em curso.
I-
O pentecostalismo como heresia: as
escaramuças iniciais
A chegada do
pentecostalismo ao Brasil, no ano de 19101, ocorreu
num contexto de consolidação do protestantismo histórico. Eram tempos em que a
pregação protestante embora ainda longe de concorrer com o catolicismo majoritário
já trazia preocupações ao clero católico, mormente quando enveredava para o
campo das polemicas religiosas. Diante dos desafios que enfrentava para
crescer, o protestantismo se tornava cada mais combativo. Face à busca, por
parte do catolicismo, de uma intelectualidade católica leiga que bem pudesse
representar a Igreja de Roma nossos tempos2, o
protestantismo brasileiro se refinava, querendo atingir o mesmo público.
Dificilmente,
os primeiro pentecostais no Brasil buscaram uma outra população. Daniel Berg e
Gunnar Vingren foram evangelizar as populações ribeirinhas do Amazônia, e Luigi
Francescon identificou-se com os operários italianos moradores do bairro do
Brás, em São Paulo. Tais pregadores não estavam preocupados em refinar suas
pregações ou em intelectualizar seu discurso. Ademais, usando de uma estratégia
de atingir evangélicos para constituir suas igrejas, e depois estender sua
pregação aos católicos, agiram como adversários, e não como aliados das igrejas
protestantes já instaladas no Brasil. Diante desse quadro, acabaram sendo
tratados como inimigos do protestantismo, seita nociva e heresia perigosa, no
mesmo patamar do adventismo e do espiritismo3.
Émile Léonard
registra que, mesmo antes da chegada do pentecostalismo ao Brasil, já teriam
acontecido manifestações religiosas consideradas marginais pelo protestantismo
brasileiro, na linha do que ele chamou de iluminismo4: os
“Muckers” entre os luteranos no Rio Grande do Sul, e a Igreja Evangélica
Brasileira5. Esta última se estabeleceu por iniciativa
de Miguel Vieira Ferreira, convertido ao presbiterianismo na cidade do Rio de
Janeiro. Sua compreensão iluminista do Evangelho chocou-se com a dos
missionários presbiterianos americanos, o que o levou a abandonar a igreja onde
se converteu e a fundar a sua própria comunidade no ano de 1879. Nisso foi
acompanhado por mais vinte e sete membros presbiterianos. Foi a primeira cisão
acontecida no presbiterianismo brasileiro, motivada por razões que se
aproximaram das crises pentecostais do século seguinte. Traumática,
possibilitou que os líderes presbiterianos julgassem a nossa comunidade
eclesiástica como não representativa doa protestantes, e Miguel Vieira Ferreira
como “cismático comprometedor”.6
De fato, o
pentecostalismo passa a ser objeto de criticas e de adjetivação condenatória
contundente pelos presbiterianos poucos anos depois de sua instalação no
Brasil. O caso de Luigi Francescon e da Congregação cristã do Brasil. Aponta
pata o começo das relações não amistosas: a primeira leva de crentes ganhos
pelo pentecostal Francescon foram pessoas oriundas da Igreja Presbiteriana
Italiana de São Paulo. A maior parte da pertença seguiu Francescon7. “O
puritano”, periódico presbiteriano surgido em 1899, classificou tais
pentecostais da Congregação cristã do Brasil de “fanáticos”.8
Da mesma
forma seriam tratados os crentes pentecostais de Belém do Pará liderados pelos
Berg e Vingren. Sobre isso acrescentou:
Diversos
artigos denunciando o grupo (os crentes da Assembleia de Deus) apareceram nos
jornais das Igreja mais tradicionais. Seu proselitismo, ignorância, barulho e
aparente falta de ordem em seus cultos ficaram sob fogo intenso. Um
presbiteriano de Belém descreveu um encontro no qual tinha participado por
curiosidade. O pregador que falava incorretamente o português, leu um salmo,
dirigiu um hino e fez uma rápida exposição do texto, que incluiu muita
repetição da frase ‘gloria a Jesus’. Então, segue-se uma oração cheia de
frenesi pela cura de uma mulher que parecia ser cega, tudo acompanhado por um
‘barulho infernal’. Após isso, houve testemunhos que repetiram o tema ‘Jesus é
bom. Ele me salvou, Ele me curou. Glória a Jesus.’ O escritor concluiu que a
reunião foi uma blasfêmia.9
A IPB,
através de seus líderes e de seus concílios oficiais, por mais de duas décadas
(as de 20 e 30) continuou a não poupar os pentecostais. Perdendo, aqui e ali
membros para tais igreja, embora tais perdas não fossem significativas
(lembremo-nos de que erma basicamente, diferentes), a Igreja Presbiteriana
discursava a condenação dos pentecostais visando sua própria integridade
doutrinária e institucional. Uma resolução do Sínodo Presbiteriano, em 1924,
recomendava “aos presbiterianos que se
acautelem contra as influencias heréticas, como o Pentecostalismo e o
Sabatismo.”10O campeão da lista contra o pentecostalismo
foi, no entanto, o reverendo Valério Silva, formado nos primeiros anos da
décadas de 30 no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas. Seu trabalho
constituía em dar palestras sobre o pentecostalismo nas igrejas locais (e isso,
não somente em Igrejas presbiterianas) ou ainda, em enfrentar lideranças
pentecostais em debates públicos. Num livrinho seu, publicado em São Paulo, no
ano de 1934, com o título O systema
pentecostal analysado à luz dos ensinos de Christo, Silva afirma:
A nova
doutrina vem desorientar o povo que precisa do Salvador e Mestre – Jesus, como
um poder na vida; enevoar a verdade e lançar a confusão; a própria
personalidade, desequilibrando o senso moral e tornando o homem dependente da
ação de forças que lhe são alheias, que ele bem não pode identificar, tirando o
uso da razão e do bom senso nas coisas divinas e humanas, tornando-o incapaz de
expressão individual a mercê do espirito...11
Para Silva,
como se vê, os pentecostais desenvolviam um trabalho de manipulação de seus
ouvintes às técnicas do hipnotismo12. Somente isso poderia explicar o grau de
convencimento aos qual chegavam os crentes conquistados por eles.
A máxima do
Reverendo Valério Silva, expressa ao final do seu livreto “Amemos aos pentecostais, mas rejeitemos suas heresias”13 expressa bem as dificuldades no convívio de
presbiterianos e pentecostais nesse período, dificuldades essas também
experimentadas pela Igreja Presbiteriana Independente. Os primeiros choques
ocorreram exatamente no nascedouro das Assembleias de Deus: a cidade de Belém
do Pará14. A IPI local, pastoradas pelo Reverendo
Manoel Machado, passou a ser assediada por crentes da Assembleia de Deus. O
Reverendo Manoel, responsável por todo campo eclesiástico da IPI no norte e no
nordeste (de igrejas na época, de Manaus a Salvador), não tinha condições
materiais de deter o tal assédio, face ao modelo presbiteriano de lideranças,
sempre centrado no pastor. Ocorreu, então, o inevitável: muitos crentes,
inclusive o principal líder leigo das igrejas passaram a frequentar a
Assembleia de Deus. Machado, que a princípio não se posicionou a respeito dos
pentecostais, até porque desconhecida completamente o seu pensamento e
procedimento, mudou de atitude. No jornal oficial da igreja, O Estandarte,
publicou entre março e 30 de outubro de 1919, vinte e três textos sobre o
assunto, denunciando os pentecostais de Belém do Pará como presunçosos,
proselitistas, aproveitadores: “sectários
perigosos com aparência de piedade.”15
Manifestações
e dificuldades isoladas, como a que descrevemos acima, continuaram a acontecer,
aumentando na medida que os pentecostais se espalhavam: a Assembleia de Deus, a
partir do norte, irradiando-se para o sul, na direção do Rio de Janeiro; a
Congregação Cristã no Brasil, crescendo no estado de São Paulo e espraiando-se
para o Panará. De qualquer maneira, a temática do Espírito Santo passou a ser
mais enfatizada pelos pastores da IPI, na busca da superação interna do
discurso pentecostal que continuava a incomodar.
Foi
exatamente a temática do avivalismo, palpável para todo o protestantismo
histórico brasileiro, que acabou por monopolizar a preocupação dos pastores
presbiterianos nas décadas de 30 e 40. De certa forma, pode-se dizer que o
ardor dos pentecostais, bem como seu crescimento, foram fatores importantes,
embora não os únicos 16, na mudança do enfoque presbiteriano.
Pierson chamava isso de “nova atitude” dos presbiterianos, por que resultou,
inclusive, num certo reconhecimento do valor dos pentecostais, e da legitimidade
de sua fé evangélica17. Manifestações ainda tímidas, eram superadas
pelas críticas contundentes aos “hereges” e pela negação de suas ligações com a
família evangélica.
II – A gestação e o parto de um
presbiterianismo pentecostal
(continua)
Notas
1. A primeira leva de
missionários pentecostais principia em 1910, com a vinda de Luigi Francescon
proveniente dos Estados Unidos. Francescon, foi responsável pela fundação da
Congregação Cristã do Brasil. No ano seguinte chegariam os suecos Daniel Berg e
Gunnar Vingren, para organizar a Assembleia de Deus. Vinham também dos Estados
Unidos da América.
2. Tal busca desembocou no
rompimento de lideranças católicas do quilate de Jackson Figueiredo e Alceu
Amoroso Lima.
3. O reverendo Manoel Machado,
responsável por todas as IPIs do norte e do nordeste na primeira década do
século passado, cogitou que as experiências pentecostais tivessem a mesma raiz
do espiritismo, face à fenomenologia semelhante (O estandarte, 16.10.1919, p.
16).
4. Léonard não usa o termo “iluminismo”
em sua conotação histórica, mas como “sinônimo de misticismo”. “O iluminismo
num protestantismo de constituição recente” – São Paulo, Programa Ecumênico de
Pós Graduação em Ciências da Religião, 1988, p.6, nota dos tradutores.
5. “O iluminismo num
protestantismo de constituição recente”, p. 6.
6. “O iluminismo num
protestantismo de constituição recente”, p. 35
7. Ver
Pierson, Paul E., A Younger Church In
Search Of Maturity. San Antonio, Trinity University Press, s.d., p. 70.
8. Pierson,
Paul E., A Younger Church In Search Of
Maturity, p. 70.
9.
Pierson, Paul E., A Younger Church In
Search Of Maturity, p. 71.
10. Neves, Mário. Digesto Presbiteriano. São Paulo, Casa
Editora Presbiteriana, 1950, p. 188.
11. São Paulo, Estabelicimento
Gráfico “Cruzeiro do Sul”, p. 5.
12. O systema pentecostal analysado à luz dos ensinos de Christo, p. 5.
13. O systema pentecostal analysado à luz dos ensinos de Christo, p.
47.
14. Escrevemos um trabalho no ano
passado, A Igreja Independente do Brasil e o pentecostalismo, ainda não
publicado, onde abordamos com maiores detalhes as controvérsias entre os
missionários suecos, fundadores da Assembleia de Deus em Belém do Pará, o
Reverendo Manoel Machado, da IPI.
15. Apud Lima, Éver Ferreira
Silva A Igreja Presbiteriana do Brasil e o pentecostalismo, p. 4.
16. Na época muitos presbiterianos já
reclamavam do intelectualismo, expresso especialmente nos cultos centrados nos
sermões. Vários articulistas da época, em jornais como O Estandarte, já se mostravam preocupados com a situação.
17. Pierson, Paul E., A Younger
Church In Search Of Maturity, p. 178.




