terça-feira, 14 de maio de 2013

O Dia da Expiação no ano de 1844 NÃO caiu no “dia 22 de outubro”!


Os adventistas do sétimo dia concordam que, segundo as Escrituras, o Dia da Expiação é o décimo dia do sétimo mês judaico: "Isso vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez dias do mês, afligireis as vossas almas, e nenhuma obra fareis, nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós. Porque naquele dia se fará expiação por vós, para purificar-vos: e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o Senhor".– Levítico 16:29-30.

Os adventistas do sétimo dia também concordam em que qualquer calendário judaico indicará que o sétimo mês judaico é o mês a que os judeus chamam de "Tishri". Para ajudar o leitor, os doze meses judaicos estão alistados abaixo, tendo o número de dias de cada mês e seu correspondente aproximado no calendário gregoriano:
  1. Nisã (30 dias) - março/abril
  2. Iyyar (29 dias) - abril/maio
  3. Sivã (30 dias) - maio/junho
  4. Tammuz (29 dias) - junho/julho
  5. Av (30 dias) - julho/agosto
  6. Elul (29 dias) - agosto/setembro
  7. Tishri (30 dias) - setembro/outubro
  8. Cheshvan (29 ou 30 dias) - outubro/novembro
  9. Kislev (29 ou 30 dias) - novembro/dezembro
  10. Tevet (20 dias) - fezembro/janeiro
  11. Sh'vat (30 dias) - janeiro/fevereiro
  12. Adar (29 dias) - fevereiro/março
Não há disputa entre os adventistas do sétimo dia, cristãos e judeus quanto a essa informação. Contudo, os adventistas do sétimo dia há muito têm ensinado que no ano de 1844, o Dia da Expiação (o 10o de Tirshri) ocorreu em 22 de outubro. Os adventistas do sétimo dia teimosamente sustentam a data 22 de outubro basicamente porque Ellen G. White declara ser correta.

O décimo dia do sétimo mês, o grande Dia da Expiação, o tempo da purificação do santuário, que no ano de 1844 caiu em 22 de outubro, era considerado como o tempo da vinda do Senhor. Isto estava em harmonia com as provas já apresentadas de que os 2.300 dias terminariam no outono. . . . o fim dos 2.300 dias no outono de 1844 permanece sem impedimentos" – The Great Controversy [O Conflito dos Séculos], págs. 400, 457.

Esta alegação dos adventistas do sétimo dia está em contradição direta com a data judaica para o Dia da Expiação que em 1844 foi 23 de setembro. Isto é claramente comprovado por enciclopédias e almanaques judaicos do século XIX, modernos programas computadorizados de calendário e cálculos astronômicos feitos por numerosos observatórios.
Está simplesmente fora de questão que o Dia da Expiação judaico em 1844 foi 23 de setembro. Assim, no que concerne aos judeus ortodoxos/rabínicos, os adventistas do sétimo dia estão equivocados em sua alegação de que o Dia da Expiação em 1844 caiu em 22 de outubro. Para verificação, por favor consulte no website o item "The 2300 dias and October 22, 1844 - Wrong Day, Month, Year and Event! [Os 2.300 dias e 22 de outubro de 1844—dia, mês, ano e evento errados!]" (que também inclui um link para um website judaico que tem um programa computadorizado de calendário).

Esta recente evidência era inesperada para os eruditos adventistas do sétimo dia e os está forçando a admitir que em 1844 os judeus rabínicos/ortodoxos de fato celebraram o Dia da Expiação (o 10o. de Tishri) em 23 de setembro. Em resultado disso, esses eruditos estão agora cientes de que sua data 22 de outubro está em sério descrédito, pois tinham ensinado que os judeus rabínicos/ortodoxos também celebravam o Dia da Expiação em 22 de outubro de 1844.

Discrepância de Um Mês—Como Explicar?

Os ASDs alegam que em 1844 uma seita judaica bem pequena, os "caraítas", usavam um calendário diferente e assim celebraram o Dia da Expiação (o 10o de Tishri) em 22 de outubro, um mês depois dos judeus rabínicos/ortodoxos que o faziam em 23 de setembro. Assim, o ensino ASD todo com respeito aos 2.300 dias de Daniel 8:14, o Juízo Investigativo, o Grande Desapontamento, e a entrada de Jesus no Santíssimo tem por fundamento somente as palavras de sua profetisa Ellen G. White em sua alegação de que os caraítas celebraram o Dia da Expiação em 22 de outubro de 1844. Se qualquer dessas asserções estiver incorreta, então o adventismo do sétimo estará em séria dificuldade teológica.

O Que os Adventistas Dizem Sobre os Caraítas

Quando os adventistas do sétimo dia são pressionados a apresentar evidência documentando que os caraítas de fato celebraram o Dia da Expiação (o 10o de Tishri) em 22 de outubro de 1844, não podem fazê-lo. Em vez disso, como prova, indicam informação no Seventh-day Adventist Bible Commentary [Comentário Bíblico Adventista], e o livro de L. E. Froom Prophetic Faith of Our Fathers [A Fé Profética de Nossos Pais]. Estas "provas" são citadas abaixo:
SNOW, SAMUEL S. (1806-1870). Congregacionalista, depois cético, mais tarde ministro milerita; iniciador do "movimento do sétimo mês". Começando com um artigo escrito em 16 de fevereiro de 1843, ele realçou o décimo dia do sétimo mês judaico, Tishri, o dia judaico da expiação, como o verdadeiro fim da data profética dos 2.300 anos. Mais tarde ele estabeleceu o dia específico como 22 de outubro de 1844, que no nosso calendário equivaleria ao décimo dia do sétimo mês naquele ano, segundo o velho calendário judaico. . . .

Em comum com todos os adventistas, Snow ficou profundamente desapontado com a falha de o Noivo descer do céu em 22 de outubro. Por um breve período ele questionou se um erro havia sido feito na contagem profética do ano.

Contudo, logo começou a pregar estranhas doutrinas, e publicou um periódico, chamado Jubilee Standard, de março a agosto de 1843. Profundos conflitos se desenvolveram entre ele e os mileritas, e ele se envolveu em extremo fanatismo, e finalmente proclamou ser ele próprio Elias, o profeta. Logo separou-se do adventismo de todas as formas. –The Seventh-day Adventist Encyclopedia [Encilopédia Adventista do Sétimo Dia], vol. 10, p. 1357

Infelizmente, conquanto os adventistas do sétimo dia aleguem que havia um "velho calendário judaico caraíta", não conseguem apresentar nenhum! Faltando evidência empírica de que o 10o. dia de Tishri em 1844 foi 22 de outubro, os ASDs indicam aos pesquisadores a obra de L. E. Froom, Prophetic Faith of our Fathers, p. 792, onde Froom tenta justificar a data de 22 de outubro em "Evidência E" e ". . . F". Contudo, Froom não apresenta nenhum documento caraíta para demonstrar que eles tiveram uma data diferente dos judeus rabínicos para o Dia da Expiação em 1844.

Os adventistas admitem que S. S. Snow era um indivíduo indigno de confiança. Contudo, as bobagens de Snow vão além do simples engano. L. R. Conradi, um ex-adventista do sétimo dia, registra a reivindicação de S. S. Snow de revelação divina como fonte inicial para a data 22 de outubro de 1844:

De 22 de março até 22 de outubro de 1844, S. S. Snow, gradualmente obtendo uma poderosa influência sobre todos os adventistas,
·         alegou que o Pai lhe havia revelado que a data de 22 de outubro de 1844 era o dia definido da vinda de Cristo para transformar os justos e destruir os ímpios;
·         que o grande dia do livramento era o ano jubileu do Dia da Expiação. (O fato) de que esse ano jubileu ainda estava anos no futuro, e que o Dia da Expiação judaico caía em 23 de setembro, não o incomodavam.—The Foundation of the SDA Denomination [O Fundamento da Denominação ASD], L. R. Conradi (ex-ASD) p. 68, escrito em 1939.

Sendo que os adventistas do sétimo dia já tinham um profeta, é compreensível que olhariam com desfavor a alegação de S. S. Snow de revelação divina. Contudo, ao desacreditar Snow, são deixados somente com uma fonte de evidência corroborativa: "o velho calendário judaico caraíta".

Seria de pensar-se que com tanta coisa pendente sobre um "velho calendário judaico caraíta", os adventistas do sétimo dia o teriam reproduzido e distribuído como folhas de outono! Contudo, nem sequer um "velho calendário judaico caraíta" pode ser encontrado – sem dúvida porque não existe nenhum "velho calendário judaico caraíta". Uma vez mais descobriremos os adventistas do sétimo dia perpetuando mesmo suas doutrinas mais fundamentais sobre mitos.

Talvez fique tão desapontado quanto eu pela falta de evidência para a crença adventista de que o Dia da Expiação caraíta em 1844 deu-se em 22 de outubro. Contudo, não devemos passar por alto a influência de Ellen G. White nesta questão. Em vista de que a Sra. White apôs o seu selo de aprovação sobre a data 22 de outubro, os adventistas devem crer em 22 de outubro a despeito de uma montanha de evidência contrária!
Qual é a evidência? Considerem o que modernos judeus e caraítas têm a dizer:

O que os Judeus e os Caraítas Dizem Sobre 22 de Outubro de 1844

No outono de 1998 correspondi-me com modernos judeus rabínicos e caraítas com respeito ao "velho calendário judaico caraíta" e a possibilidade de que o Dia da Expiação tenha sido celebrado em 22 de outubro no ano de 1844. Gostaria de compartilhar com os leitores alguns de seus comentários:

Na realidade não há coisa tal como um calendário caraíta perpétuo, uma vez que a real celebração de festivais geralmente se determina por observação. Eles usam de fato calendários que os ajudam a determinar "quando" calcular.– Dr. Daniel Frank
Diferentemente do calendário rabínico, não existe calendário caraíta perpétuo.--Dr. Philip E. Miller, Bibliotecário, The Klau Library, Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion [Instituto Judaico de Religião], Nova York, NY

No século 19 os caraítas geralmente estabeleciam os feriados com base em cálculos muito inexatos e primitivos, e não na real observação da Lua Nova. Ademais, nesse período diferentes comunidades caraítas seguiam diferentes sistemas de cálculo e podem ter variado por alguns dias em sua observância.—Nehemia Gordon, Jerusalém, Israel (www.geocities.com/Athens/Forum/3384/karaitekorner-main.html)

Se os adventistas (do sétimo dia) desejam reivindicar que todas as autoridades judaicas têm estado erradas, e somente a pequena seita dissidente dos caraim ("caraítas") tinha o Único Verdadeiro Calendário—bem, eu gostaria de ver um certificado com a assinatura de Deus nele!--Will Linden

Não creio que seja possível que o Yom Kippur (o Dia da Expiação) caísse tão tardiamente como em 22 de outubro no calendário de Hillel. Julgo que a data mais tardia em que poderia ter caído seria algum tempo em torno de 15 de outubro.—Tracey Rich
O Dia da Expiação nunca ocorreu tão tarde no ano quanto em 22 de outubro.—Prof. Prohofsky, Purdue University.

Um rápido exame em seu calendário (dos caraítas) confirma que está fora de sincronia com o calendário de Hillel que os judeus rabínicos (não caraítas) utilizam.— Tracey Rich

É importante que os modernos pesquisadores entendam que os caraítas eram uma seita judaica muito pequena e espalhada sem qualquer corpo governante central. Não havia um calendário caraíta universalmente aceito, e assim é possível que várias comunidades caraítas celebrassem seus festivais em diferentes dias, e estivessem "fora de sincronia" com os judeus rabínicos. Contudo, a diferença em 1844 teria sido de somente um ou dois dias, não um mês inteiro.

Por exemplo, considerem como os cálculos caraítas modernos das fases da lua em 1844 e os dias santos anuais em 1998/1999 diferem apenas ligeiramente daqueles admitidos pelos judeus rabínicos:

Fases da Lua Calculadas em 1844 pelos
CARAÍTAS*
JUDEUS RABÍNICOS**
Lua Nova 12 de setembro de 1844
14 de setembro de 1844
Lua Nova 28 agosto de 1844
28 de agosto de 1844
Dias Santificados/de Jejum Escolhidos em 1998/1999 Calculados Pelos
CARAÍTAS
JUDEUS RABÍNICOS
Rosh Hashanah 22 de setembro de 1998
21 de setembro de 1998
Yom Kippur 1de outubro de 1998
30 de setembro de 1998
Sukkot 6 de otubro de 1998
5 de outubro de 1998
Pesah 1de abril de 1999
1de abril de 1999

Desses cálculos pode-se certamente argumentar que os caraítas poderiam ter celebrado o Dia da Expiação no mesmo dia, ou ao menos dois dias antes ou depois, dos judeus rabínicos. Contudo, existe documentação de que os caraítas celebraram o seu Dia da Expiação no mesmo dia do judeus rabínicos: 23 de setembro!

Com a Palavra o Rabino Caraíta Yusuf Ibrahim Marzuk

Um dos primeiros céticos com respeito à crença adventista quanto ao Dia da Expiação ter caído em 22 de outubro de 1844 foi o ex-pesquisador adventista do sétimo dia, E.S. Ballenger.
Ballenger escreveu em seu periódico The Gathering Call, maio-junho de 1941:
22 de outubro de 1844 tem sido um tempo crucial para os ASDs uma vez que seus pioneiros fixaram sobre tal data a segunda vinda do Senhor Jesus Cristo; e ainda se apegam tenazmente a essa data a despeito de todos os fatos ao contrário. O Dia da Expiação caiu em 23 de setembro de 1844, em vez de 22 de outubro. Isso pode ser facilmente demonstrado consultando-se qualquer almanaque judaico da época, ou qualquer autoridade judaica ortodoxa. Eles celebraram o Dia da Expiação em 1844 no dia 23 de setembro.

Os defensores da idéia (ASDs) declaram que conquanto os judeus ortodoxos possam ter celebrado o Dia da Expiação em 23 de setembro, os judeus caraítas o observaram em 22 de outubro. Realizamos uma cuidadosa investigação, e descobrimos que esta é uma falsa alegação. O rabino-chefe dos caraítas do Cairo, Egito, Youseff Ibrahim Marzuk, em resposta a uma indagação quanto ao dia em que celebraram a expiação em 1844, escreveu:

"Quanto às datas da Páscoa e do Yom Kippur, são as seguintes: -- Segundo os judeus caraítas, no ano de 1843 o Yom Kippur caiu numa quarta-feira, dia 4 de outubro, e exatamente a mesma data segundo os rabínicos. No ano de 1844, caiu numa segunda-feira, 23 de setembro, tanto para os caraítas quanto para os rabínicos".

Quem era o Rabino Youseff Ibrahim Marzuk e por que sua resposta à consulta de Ballenger tinha autoridade sobre tal questão? No processo de responder a estas perguntas eu dediquei-me a uma pesquisa bastante ampla em websites caraítas e recebi as seguintes informações via e-mail:

Sou levado a crer que o relatório de Ballenger baseia-se em algum tipo de carta de Yusuf Ibrahim Marzuk. Isso parece-me provável porque houve uma tal pessoa ativa na comunidade caraíta do Cairo em 1941. Mourad el-Kodsi, em seu livro The Karaite Jews of Egypt refere-se a Yusuf Ibrahim Marzuk como chefe da Comunidade caraíta nesse período, conquanto el-Kodsi não faça menção à correspondência com Ballenger. Na pág. 221 el-Kodsi escreve:
"Yusuf Ibrahim Marzuk (1882-1952): membro do concílio religioso, então deputado da comunidade por muitos anos. Às vezes, especialmente nos anos da década de 30, ele era a única autoridade. . . ."

Na pág. 59 el-Kodsi declara que Yusuf Ibrahim Marzuk era "o dirigente executivo da comunidade" em 1940. Não pode haver dúvida que Yusuf Ibrahim Marzuk mencionado por el-Kodsi é a mesma personalidade referida por Ballenger."—Nehemia Gordon, Jerusalém, Israel.
Confirmação adicional da pesquisa de Nehemia Gordon ocorre com o Dr. Philip E. Miller, que escreve:

Marzuk era um homem muito instruído, e se disse que as datas coincidiam, então provavelmente isso se deu.— Dr. Philip E. Miller, Librarian, The Klau Library, Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion, New York, NY

CONCLUSÃO

A alegação dos adventistas do sétimo dia de que os caraítas celebraram o Dia da Expiação um mês depois dos judeus rabínicos/ortodoxos é meramente um mito.
22 de outubro de 1844 é uma teoria não-bíblica, historicamente falida, sustentada simplesmente sobre uma falsa profetisa, Ellen White. Já passou do tempo para os dirigentes adventistas admitirem a verdade a respeito de 22 de outubro de 1844.
Contudo, em vista do modo como a liderança adventista tem tratado toda outra evidência que contradiz as crenças adventistas, este pesquisador não prenderá a respiração na expectativa de tal admissão!

NOTAS
* As fases lunares caraítas eram calculadas com base no Ahmed's Moon Calculator [calculador lunar de Ahmed] do  Dr. Monzur, utilizado pelos caraítas (http://www.starlight.demon.co.uk/mooncalc/)
As datas de festivais anuais e jenuns foram calculadas pelo Rabino Magdi Shamuel ( http://www.geocities.com/SoHo/Atrium/4075/cal98-99.html).
** As datas rabínicas foram extraídas de The Jewish Holidays, A Guide & Commentary, por Michael Strassfeld, pág. 241, Harper & Row, (c) 1985
Traduzido de:

Autor: Sydney Cleveland
Título original: 22 de Outubro de 1844 — As Coisas Se Complicam Para o Adventismo Tradicional

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Antony Hoekema: Os pecados dos salvos serão expostos no Dia do Juízo!


“Às vezes é dito que os pecados dos crentes, que Deus perdoou, apagou e lançou no mar do esquecimento, não serão mencionados no dia do juízo. Entretanto, se é verdade que nada há que agora esteja oculto que não venha a ser revelado, e que o juízo se ocupará de todas as nossas obras, palavras e pensamentos, então certamente os pecados dos crentes também serão revelados naquele dia. De fato, se é verdade que mesmo as melhores obras dos crentes estão manchadas com o pecado (veja Is 64.6; Rm 3.23; T g 3.2), como será possível Trazer às luz qualquer feito dos crentes sem reconhecer algum pecado e imperfeição? Em I Coríntios 3.10-15, Paulo ensina que alguns crentes constroem sobre o fundamento da fé em Cristo com materiais inferiores, como madeira, feno e palha – estes serão salvos mas, mesmo assim, sofrerão a perda. As falhas e deficiências destes crentes, portanto, participarão do quadro do dia do juízo. Mas – e este é o ponto importante – os pecados e deficiências dos crentes serão revelados no juízo como pecados perdoados, cuja culpa foi totalmente coberta pelo sangue de Jesus Cristo. Por isso, conforme dissemos, os crentes não têm de prestar contas de tudo que fizeram, disseram e pensaram, deveria ser para eles um incentivo constante para a luta diligente contra o pecado, para o serviço consciente e para uma vida consagrada.”

Fonte: A Bíblia e o Futuro, p. 304,305.

sábado, 11 de maio de 2013

Alister McGrath é mesmo Reformado?


Professores de Institutos e Seminários ortodoxos sempre dizem: “Todo santo tem seu pé de barro”. Usam esse ditado para destacarem que por mais que um intérprete seja ortodoxo, sempre haverá um ponto que deixará uma marca no erudito, nos alertando – todos erram! É assim com J. Stott sobre a condição dos mortos, Lloyd-Jones na teoria da lacuna em Gn 1.2, R. C. Sproul com seu preterismo moderado, Calvino em sua postura sobre o batismo romano, P. Washer em dizer que o batismo infantil foi o bezerro de ouro da Reforma, e a lista não para. Ao mesmo tempo, nenhum desses assuntos atinge o eixo da ortodoxia cristã. Porém essas polêmicas causam divisões.

Outros, não tem simplesmente um pé de barro, mas um pé e a perna com gangrena.  

Um erudito que ganhou espaço entre os Reformados, obviamente por méritos teológicos próprios, por admirar Calvino, incluindo também habilidades científicas, e entrou no arraial calvinista sem restrições, foi Alister McGrath. Apesar de admirar a contribuição dele no campo que atua, acredito que não posso ler tal autor sem sérias restrições.

1. Será que ele crê na Inerrância da Escritura Sagrada? Parece estranho perguntar isso, em especial quando lemos um artigo de McGrath no livro Religião de Poder (Capítulo 13), com um forte teor Reformado, além de defender a suficiência e a força pregação da Escritura, termina o artigo dizendo que ‘os reformadores são nossos pais na fé’ (p. 254).

Pois bem, ao percorrer as páginas do livro Paixão pela verdade, da Shedd Publicações, me deparei com algumas coisas que, confesso, me deixaram preocupado. McGrath escreve que a defesa da inerrância e da autoridade da Escritura, conforme exposta pela Velha Princeton, na era ‘dos Hodges’, bem como pelo erudito Benjamin Warfield, são na verdade uma defesa que tem compromisso com Iluminismo, e que a o verdadeiro conceito bíblico de Inerrância não é aquele defendido por esses autores, e outros da atualidade. Ele chega a dizer que o conceito de inerrância deles ‘deveria ser colocado de lado’, conquanto que se mantenha a autoridade da Escritura (p. 21). 

Por um lado, reconhecida acusação de McGrath a respeito do contexto em que Hodge & CIA estavam inseridos, a abordagem bíblica deles não pode ser rejeitada. Nem mesmo que a postura deles era puramente de seu próprio tempo. O Dr. Paulo Anglada diz: “... os teólogos de Princeton estão em substancial harmonia com outros que os antecederam, e com Kuyper e Bavinck.” (http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/autoridade_anglada.htm).

Mesmo Lutero, Calvino, etc. responderam aos clamores de seu tempo, mas a base das respostas desses Reformadores não pode ser sepultada nessa classificação; de que a argumentação bíblica deles teve fecundação em filosofia ‘mundana’.

Vejas essas partes do livro Paixão pela verdade:

“Teólogos evangélicos parecem muitas vezes ter estado mais preocupados com a defesa da autoridade da Escritura, do que em tratar do seu conteúdo” (p. 19). A advertência é legal, mas ele foi mais longe...

“2. A identificação da escritura como autoridade suprema em matéria de espiritualidade, doutrina e ética;” (p. 20). Note aí em quais assuntos a Bíblia é autoridade para McGrath. A Confissão de Chicago sobre a Inerrância Bíblica diz: “Art. IX - Nós confessamos que a inspiração, embora não conferindo onisciência, garantiu pronunciamentos verdadeiros e fidedignos em todos os assuntos dos quais os autores foram levados a falar e escrever.” Artigo XI também (Havendo Deus Falado, p.154). O que McGrath quer dizer com ‘autoridade’?

“A compreensão que Benjamin B. Warfield tem da autoridade da Escritura, por exemplo, é moldada por pressões e influências da filosofia escocesa do senso comum, que se tornou de muita importância em Princeton durante o século XIX.” (p. 49). Para McGrath o problema não era a autoridade da Escritura ali defendida, mas a maneira que ele apresentou a defesa desta autoridade. Poderia parecer bonito esta observação se a defesa de Warfield não fosse bíblica!

“O resultado é que formas do evangelicalismo estado-unidense que tem sido especialmente influenciado por racionalismo, como aquela associada com Carl Henry, tem colocado ênfase demais na noção de uma revelação bíblica puramente proposicional” (p. 90).

“Alguns evangélicos como Carl F. H. Henry e R. C. Sproul, são fundamentalistas em suas abordagens, mais uma vez aparentemente por razões apologéticas; isso, porém, não significa que o evangelicalismo como um todo seja fundamentalista em sua metodologia.(Nota 37 p. 210)

“O evangelicalismo sempre esteve preocupado em demonstrar a ligação próxima entre Escritura e doutrina. Por razões que em último caso refletem a dominância das ideias do Iluminismo em Princeton durante o século XIX...” (p. 91).

“Cada vez mais, os evangélicos estão expressando receios com respeito às abordagens da autoridade bíblica associadas à escola da Old Princeton, vendo o uso continuado das ideias deste educandário contribuindo para a escravidão prolongada do evangelicalismo às ideias e pontos de vistas do racionalismo Iluminista.” (p.99).

“Há uma percepção crescente dentro do evangelicalismo de que a posição de Princeton está em última análise dependente de suposições e normas extrabíblicas.” (p. 99).

“E Princeton era para ser o cadinho no qual as grandes teorias evangélicas de inspiração e autoridade bíblica eram forjadas. O resultado? As teorias de escritores como Charles Hodge (1797-1858) são profundamente influenciadas pelos preconceitos do Iluminismo.(p. 142).

“O tom fortemente racionalista dessa filosofia é particularmente evidente nas obras de Benjamin B. Warfield, mas é claramente evidente nas dos primeiros tempos de Charles Hodge.” (p. 142).

“Essa teoria da teoria da língua é de importância fundamental, porque oferece alicerce à crença de Hodge de que, hoje, o leitor da Bíblia pode estar “seguro de encontrar muitos pensamentos e intenções do próprio Deus”. Contudo essa ideia metafísica foi emprestada, junto com igualmente questionável paternidade teológica, do Iluminismo. A análise de Hodge sobre a autoridade da Escritura é, em última instancia, baseada em uma teoria não reconhecida e implícita da natureza da linguagem, que se deriva do Iluminismo, e reflete a ordem dessa escola filosófica.” (p.142).

“Donald G. Bloesch já argumentou que um espírito fortemente racionalista pode ser discernido mesmo dentro dos escritos desses evangélicos modernos estado-unidenses, como Carl F. H. Henry, John Warwck Montgomery, Francis Shaerffer e Norman Geisler.” (p. 142).

“A tendência geral de tratar a Bíblia puramente como um livro-fonte de verdades puramente proposicionais pode ser argumentada de maneira a encontrar base especialmente na antiga escola de Princeton, em particular nos escritos de Charles Hodge e Benjamin B. Walfield, em que tendências das pressuposições do Iluminismo é especialmente fácil de ser notada.” (p. 146).

Conclusão desta parte: Se o Iluminismo é a essência argumentativa desses teólogos, em sua abordagem da autoridade da Escritura, estamos com sérios problemas ao citar os mesmos. Da mesma maneira posso perguntar: Qual influência teve McGrath? Será que na verdade McGrath precisa se livrar de alguns postulados permanentes entre os Reformados, para permanecer entre eles? Se até mesmo Francis Shaeffer recebeu o rótulo de ‘racionalista’, fica confuso o que o mesmo escreveu: “...os iluministas também ignoraram a base e o legado cristão e voltaram os olhos para o passado, para os velhos tempos pré-cristãos.” (E agora como viveremos, p. 77,78).

2. Ele é um teísta evolucionista (?). Dizem isso sobre ele... Tudo bem, é um teísta. E não tenho nenhuma habilidade para entrar nessa questão. Mas espera aí; a teologia Reformada é criacionista em sua base, e a IPB Confessionalmente Criacionista, simplesmente porque a Bíblia é Criacionista. Quanto a isso, embora não tenha capacidade e informações suficientes para debater essa questão, a postura Reformada está clara! – Veja: CFW IV, 1,2. CMW pergunta 15.

O Rev. Leandro Lima observa que ‘McGrath vai longe demais ao dar e entender que Calvino concordaria com as teorias cientifica da atualidade’ (O Futuro do Calvinismo, p.183). McGrath escreveu: “Se Calvino tivesse tido uma influência maior sobre seus seguidores... Todo o debate sobre a evolução teria tomado um curso radicalmente diferente...” (citado em O Futuro do Calvinismo, p. 182). A observação do Rev. Leandro Lima é acertada. A hermenêutica avançada de Calvino, a respeito da teoria da acomodação no relato da criação, não muda a ideia central da sua crença.

Conclusão: Das quatro obras da ‘biografia’ de J. Calvino que li, posso dizer que a de Alister McGrath é a melhor. Realmente ele contribuiu e contribui para muita coisa boa, não apenas na literatura mas até em debates. Porém, me parece que ele está tropeçando em assuntos nevrálgicos para uma correta classificação do que é ser um Reformado (II Tm 4.1-5).

sexta-feira, 10 de maio de 2013

'Deus não existe, a Bíblia é um livro mitológico, cheio de erros, produzido por fanáticos e anticientífica!'


... Essas são objeções comuns lançadas contra a fé cristã. Caso alguém lance para você tais 'acusações' acima, gostaria de lhe sugerir alguns argumentos simples e práticos:


A) 'Deus não existe'. É bom perguntar: Tem certeza que Deus não existe? Quais são as provas que Deus não existe? Caso ele diga para você que é você que tem que provar, ele na verdade entregou o 'apito do jogo' em suas mãos.


Comece usando o simples argumento bíblico de que a existência do mundo físico pressupõe inequivocamente a existência de Deus (Sl 19; Rm 1.18). Se ele correr para a ideia ‘evolucionista’, diga que não é o processo da construção “da casa” que está em discussão, por enquanto. Se uma casa for construída por máquinas ou por trabalho humano direto, não fará diferença nesse momento. Isso não é concordar em nada com o evolucionismo, é apenas tratar de cada questão ao seu tempo. Lembre que o que você disse é que “o mundo físico pressupõe a existência de Deus”.


B) ‘A Bíblia é um livro mitológico!’. Mito é uma lenda. Primeiro o incrédulo deverá mostrar qual é o mito que ele tem em mente. Se ele disser que o Dilúvio, Sansão, Jonas, seriam exemplos disso, responda que se Deus não existisse caberia sim a classificação de um mito. Vamos usar uma fábula para ilustrar: Em um formigueiro as formigas ouvem que existe a possibilidade de conservar comida por longo tempo sem que essa estrague. Elas acharão que isso é um mito enquanto não saberem que para os humanos isso é possível. Imagine a formiga vendo uma geladeira com alimentos conservados cheios de doces!?


Seria "lógico" dizer que algo seria impossível a um Deus TODO-PODEROSO? Se Deus não existe faz sentido pensar que alguns relatos bíblicos seriam mitos. Mas como a existência de Deus é um fato proposicional, moral e necessário, dizer que Ele não pode abrir o mar vermelho, é agir contra ao que é estabelecido pela lógica, tão importante para os racionalistas. Podemos definir lógica como consequência necessária de qualquer proposição. E a nosso proposição é: O Todo-Poderoso Deus pode fazer milagres! Negar a existência dele é uma coisa, mas negar a lógica deste argumento simples, é impossível.


C) ‘Cheio de erros/ anticientífica’. Quais erros? Suponha que ele diga que exista contradição entre a ciência e afirmações bíblicas. Mais uma vez o problema acima foi invocado e deve ser trazido a tona que a existência de Deus possibilitaria coisas do tipo ‘anticientíficas’, como um homem andando sobre as águas. Se ele disser que existe contradição de uma parte quando comparada com outra mostre que essas questões são solucionadas por eruditos bíblicos e/ou pela manuscritologia. Afirme: Quando uma ciência (de qualquer área) se depara com certa dificuldade, algumas propostas são apresentadas como respostas. A ciência bíblica também.


D) ‘Escrita por fanáticos religiosos’. Primeiro: o fanatismo religioso é garantia que ele escreveria uma mentira? Qual o nível de fanatismo que você encontra na Bíblia? O nosso contexto histórico e cultural permitiria mesmo classificar alguém de fanático quando visto de um ponto de vista diferente, em outra época e cultura? Uma pessoa que sempre preservou a boa moral poderia classificar a sociedade de hoje de fanática por sexo? Também tal fanatismo indicado deve ter a conotação de guerras, penas de morte, etc.

  • Diga ao incrédulo que na Bíblia temos princípios morais, histórias e profecias. E que o problema dele não é com a história nem com a profecia, mas com os princípios morais que Deus exige dele, e os tais irá condená-lo (Rm 7.7-12).

sábado, 4 de maio de 2013

J. Ryle: como ser santo?


"1) Santidade é o habito de ser de uma só mente com Deus, de acordo com o que as Escrituras descrevem como sendo a mente dele. É o hábito de concordar com seu julgamento, odiando o que ele odeia, amando o que ele ama e comparando tudo neste mundo com o padrão de sua Palavra.

2) Um homem santo se esforçará para evitar cada pecado conhecido, e guardar cada mandamento revelado. A inclinação de sua mente será decisivamente direcionada para Deus. O desejo do seu coração será o de fazer a vontade do Pai. Ele temerá muito mais a desaprovação divina do que a do mundo e terá o mesmo sentimento que Paulo teve quando disse: ‘Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus’ (Rm 7.22).

3) Um homem santo se esforçará por ser como o Senhor Jesus Cristo. Ele não somente viverá uma vida de fé nele, e dele receberá paz e força para viver o dia-a-dia, mas também trabalhará para ter a mente de Cristo e ser conforme à sua imagem (Rm 8.29). O seu objetivo em relação às outras pessoas será o de andar ao lado delas, perdoá-las...ser generoso...caminhar em amor...ser manso e humilde...Ele guardará no coração as palavras de João: ‘Aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou’ (1Jo 2.6).

4) Um homem santo buscará mansidão, longanimidade, bondade, paciência, gentileza e controle de sua língua. Dará um bom testemunho, será muito paciente, tolerante para com os outros, e também não se apressará em exigir os seus direitos.

5) Um homem santo buscará temperança e auto-negação. Lutará para mortificar os seus desejos carnais, crucificar sua carne com suas tentações e lascívias, fugir das paixões e controlar suas inclinações carnais, sempre que elas se manifestarem (Ryle então cita Lc 21.34 e 1Co 9.27). 

6) Um homem santo buscará praticar a caridade e a fraternidade. Ele se esforçará por fazer para os outros o que gostaria que os outros fizessem para ele e falará dos outros o que gostaria que os outros falassem dele...Abominará toda mentira, difamação, maledicência, engano, desonestidade e injustiça, mesmo nas pequenas coisas.

7) Um homem santo buscará misericórdia e bondade no trato com os outros...Será como Dorcas, ‘notável pelas boas obras e esmolas que fazia’, que não somente se propôs a fazer ou falou a respeito das boas obras, mas as praticou (At 9.36). 

8) Um homem santo buscará a pureza de coração. Temerá toda a corrupção e impureza de espírito e tentará evitar todas as coisas que podem levá-lo a se contaminar. Ele sabe que o seu coração facilmente se inflama, e tentará cuidadosamente evitar a brasa da tentação. 

9) Um homem santo buscará o temor a Deus. Não me refiro ao temor de um escravo, que somente trabalha para evitar a punição que receberá, caso seja descoberto sem fazer nada. Ao contrário, penso no temor de uma criança, que deseja viver e se locomover como se estivesse sempre com o seu vigilante pai por perto, porque sabe que ele a ama. 

10) Um homem santo buscará humildade. Desejará, em sua mente simples e caridosa, ter os outros em mais alta estima do que a si mesmo. Também perceberá mais o mal existente em seu coração do que em qualquer outro neste mundo. 

11) Um homem santo buscará fidelidade em todos os seus deveres e relacionamentos. Por seus motivos serem os mais sublimes, e contando com o adicional da ajuda divina, ele não se contentará apenas em cumprir suas obrigações, mas, melhor ainda, tentará ajudar aqueles que não se preocupam com a sua alma. Pessoas santas devem, em todos os momentos, desejar praticar o bem, e devem se envergonhar se algo de mal acontecer a alguém que elas poderiam ter ajudado. Elas devem lutar por ser boas esposas e bons maridos, bons pais e bons filhos, bons patrões e bons empregados, bons vizinhos, bons amigos, bons cidadãos, bons em particular e em público, bons no local de trabalho e no ambiente familiar. O Senhor Jesus perguntou ao seu povo algo que exige reflexão, quando diz: ‘Que fazeis de mais?’ (Mt 5.47). 

12) Por fim, um homem santo encherá sua mente com coisas espirituais. Tentará se concentrar inteiramente nas coisas do alto, não se apegando às coisas deste mundo...Ele buscará viver como alguém cujos tesouros estão no céu e cuja permanência nesta terra é vista apenas como a de um peregrino, que viaja para casa. Sua maior fonte de prazer está na comunhão com Deus por meio da oração, da leitura da Palavra e da reunião do seu povo. Ele dará valor à cada coisa, lugar e relacionamento, uma vez que esses fatores o trazem mais para perto de Deus”."